FRONTEIRAS
Por Paulo Chiesa
O tema Fronteiras não foi escolhido para o IX ENEPEA por casualidade. O termo é tão ambíguo como “paisagem”. Mas ambos se definem através do binômio Homem/Sociedade em relação à Natureza/Território. É nossa expectativa que os participantes se debrucem sobre suas realidades específicas, sobre seus interesses particulares de estudo e trabalho, a partir dos seus locais e regiões de origem – sem, contudo, perder de vista de que se vive atualmente um momento particular de tomada de decisões sobre o futuro da humanidade, sobre o avanço das ciências em uma perspectiva de integração disciplinar, sobre novas sensibilidades em compreender e viver a realidade nas paisagens que construímos para habitar. O IX ENEPEA não tem a pretensão de responder a tantas e complexas questões, mas certamente deixará sua marca e contribuição para a construção de um projeto coletivo nesta direção. Se isso ocorrer, pelo menos entre um grupo significativo de novos e antigos participantes, já estará garantido o sucesso do evento.
O tema nasceu no encontro anterior, no calor da decisão de trazer o ENEPEA para Curitiba. Foi sendo forjado desde a primeira conferência, ministrada pela arquiteta Miranda Magnoli, até a plenária final do encontro anterior. Fronteiras surgiu da idéia de uma ponte que relaciona dois lados. O rio ou o vão atravessado e unido pela ponte é um limite, uma borda, uma interface entre situações distintas. Às vezes esses lados são opostos, e mais ou menos concretos. Noutras vezes não. A própria dúvida sobre como definir o que é fronteira na esfera das relações entre o mundo biofísico e social pareceu, naquela ocasião, um atrativo para fazer as pessoas refletirem sobre essa idéia. As fronteiras são culturais, simbólicas, físicas, imaginárias, estáveis, móveis, etc. E os arquitetos e urbanistas lidam com elas constantemente através do seu objeto de estudos: a intervenção no espaço através do desenho, dos projetos. Foi daí que brotou essa idéia.
Por outro lado, em relação ao Brasil atual, questiona-se: quais são as fronteiras do nosso País? O que as define no mundo atual? Como as percebemos, lemos, interpretamos para atuar na realidade? Essa idéia também pareceu interessante para estimular as pessoas em várias regiões e cidades a refletir sobre sua inserção no território e num projeto de País – a trazer para o ENEPEA um pouco da enorme diversidade de opiniões e pontos de vista sobre as paisagens naturais e humanizadas existentes nesse imenso Brasil, e juntá-las entre si através dos participantes do encontro.
Enfim, trata-se de um tema flexível, ainda que complexo. Pode parecer difícil apreendê-lo – mas é bom lembrar que este é um evento científico. É preciso exigir esse esforço de seus participantes. Creio estar na natureza da Academia se propor desafios desse tipo.
Os temas anteriores abordavam desde conteúdos disciplinares (Rio e São Paulo) até os primeiros debates sobre o Mercosul e a globalização em nosso continente (São Carlos). Exploraram a teoria e a história do Paisagismo (Recife e São Paulo); as tendências contemporâneas do projeto paisagístico (Rio e Belo Horizonte); etc., sempre focalizando as questões relacionadas ao ensino, à pesquisa e às atividades de extensão a partir das instituições de ensino superior. A atividade profissional, de capacitação de leigos e as políticas de fomento a essa área de estudos e trabalho também foram um assunto constante nas quase duas décadas de encontros.
Creio que para o paisagismo contemporâneo a temática fronteira assume uma importante dimensão filosófica, assim como pragmática. E, conseqüentemente, tem forte impacto social. O mundo está prenhe de mudanças, muita delas sutis, rápidas ou profundas. As transformações no modo de viver e se relacionar com essa realidade turbulenta e em constante movimento nascem do impacto causado pelo avanço do conhecimento e o uso de novas tecnologias. As alterações provocadas pelo homem na Natureza e no âmbito das relações sociais de produção implicam em novos valores, práticas e hábitos sociais, leis e normas que redefinem constantemente o que sabemos e como nos adaptamos para a vida em sociedade. A sociedade brasileira caracteriza-se pela heterogeneidade, pela diversidade, pela desigualdade de oportunidades; traços que insinuam um rearranjo constante dos seus limites históricos, geográficos, sócio-culturais. É da agenda do paisagismo contemporâneo estar atento e perguntar-se sobre como se vive nesse mundo de convívio e exclusão, de pobres e ricos, do belo e do feio. Como essas questões se refletem no estudo e no ensino do projeto de paisagismo para os arquitetos e urbanistas? Como elas se apresentam no exercício profissional e na legislação atual sobre a profissão?
Há as fronteiras que estabelecemos entre nós e os outros, cotidianamente. Desde o vidro do carro fechado por medo e insegurança até o muro alto, com arames eletrificados. As materializadas são mais fáceis de descrever, mas nem por isso menos complexas. Existem as fronteiras no âmbito do território: os limites entre países, regiões, cidades, bairros, lotes e ambientes; ou aquelas forjadas na natureza através da longa história do planeta, como as paisagens primordiais das costas e planícies litorâneas, as das cordilheiras e serras, dos planaltos.
As fronteiras podem ser também de ordem simbólica e cultural: hoje em dia vivemos cada vez mais em cidades, expondo nossas diferenças e recriando-as através de inusitadas práticas sociais. O hábitat do homem contemporâneo tem as fronteiras fluídas, entrecruzadas, sobrepostas, turbulentas ou equilibradas – todas, porém, em permanente mudança.
Existem fronteiras e limites para tudo na vida, nos espaços privados e públicos das cidades. O mais interessante da atualidade é a forma como essas fronteiras são derrubadas e reconstruídas constantemente. É da natureza do mundo de hoje essa instabilidade, fugaz e desnorteante.
O Paraná e Curitiba são exemplos fantásticos disso, porque no lapso de um século ou menos as suas paisagens naturais se transformaram radicalmente – criando-se uma segunda paisagem humanizada agro-industrial e urbana integrada num complexo sistema nacional, regional e global. Essas mudanças ocorrem por todo País, e vir ao ENEPEA é uma oportunidade para encontrar-se com elas, para reconhecê-las e entendê-las melhor.
No âmbito da educação superior existem as fronteiras entre as diferentes ciências e disciplinas científicas, imprescindíveis para se obter um conhecimento mais abrangente sobre a realidade do Habitat humano. Nesse sentido há um consenso – de que os arquitetos e urbanistas precisam dialogar com outros profissionais e com a sociedade e seus saberes para intervir corretamente na paisagem. Ou seja, é preciso explorar as fronteiras disciplinares, respeitá-las e aprender a usá-las a favor de um projeto de qualidade de vida.
FRONTEIRAS EM CURITIBA
É simples entender o desdobramento do tema para nossa cidade. Um primeiro exemplo é a relação entre o Paraná e sua rede de cidades – particularmente a capital, uma região altamente industrializada e especializada que opera sobre um amplo território que ultrapassa os limites do estado, imiscuindo-se sobre áreas do sul de São Paulo e Mato Grosso do Sul ou o norte de Santa Catarina, e até no Paraguai. Refiro-me aqui à interdependência entre o espaço produtivo agro-industrial e a principal região urbanizada paranaense cujo centro é Curitiba.
Internamente à região metropolitana está bem demarcada a fronteira entre a cidade-pólo e os seus vizinhos, expressa pela desigualdade de oportunidades e recursos, pelos assentamentos precários nas periferias e nas bordas dos municípios – sobre os limites, úmidos e secos das fronteiras entre Curitiba e essas municipalidades.
Olhando para dentro de Curitiba, é possível perceber diferenças entre as regionais, entre os bairros centrais e periféricos, entre setores e ares de um mesmo bairro. A coisa fica um pouco mais complicada quando se aborda os espaços livres de convívio da população. Porque é da natureza das grandes cidades a mescla de grupos sociais compartilhando os mesmos lugares. Mas há regras, existem barreiras e convenções que se estabelecem para usufruir os lugares, para ir e vir nos espaços públicos e privados. Aí também está um exemplo de como esse tema nos ajuda a pensar cada local onde habitamos, circulamos, trabalhamos e nos recreamos.
O ENEPEA E AS FRONTEIRAS
As palestras foram planejadas de forma a escolher pessoas que iluminassem essas questões a partir de suas próprias trajetórias e opiniões – nada de ouvir o que já se sabe. A chamada de artigos para o 9º ENEPEA continha também a proposta de explorar as fronteiras, e as pessoas responderam nos enviando 123 artigos de todas as regiões do Brasil. Os materiais teóricos, humanos e financeiros existentes por trás dessas iniciativas são consideráveis. Há mais de um ano estamos trabalhando para entrar em contato com o maior número de escolas em todos os estados do País. Fizemos a lição de casa, agora é hora de colher os frutos desse trabalho.
Por outro lado, os ENEPEAs consolidaram uma metodologia, aperfeiçoada a cada novo encontro. As atividades principais são: as conferências com especialistas do Brasil e do estrangeiro, que alimentam debates a partir de seus discursos; mesas-redondas e grupos de trabalho discutem as questões sobre ensino, pesquisa e extensão; essas mesmas questões comparecem nas sessões que expõe relatos de experiências de trabalhos individuais ou coletivas; também se organizam mostras sobre práticas pedagógicas e pôsteres sobre projetos; há ainda o tradicional concurso de estudantes, além de uma série de atividades paralelas como visitas técnicas, lançamentos editoriais, exposição de empresas que atuam na área do paisagismo, etc.
CONCURSO DE ESTUDANTES
Um dos destaques do 9º ENEPEA que remetem ao tema Fronteiras é o formato do Concurso Nacional de Estudantes. O concurso assumiu nesta edição um tema real: paisagismo sobre área sócio-ambiental frágil, a partir de um convênio entre o ENEPEA e a Companhia de Habitação do Paraná (COHAPAR) mais a Caixa Econômica Federal (CEF). A área do estudo-de-caso proposto para o concurso é o Guarituba, uma região de várzeas (‘wetlands’ ou áreas úmidas) sujeita a regularização fundiária no município de Piraquara, região metropolitana de Curitiba. A ocupação do Guarituba é atualmente o maior projeto desse tipo no Paraná beneficiado pelo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) do governo federal. Foi uma maneira de estimular os estudantes a propor soluções que melhorem as condições de vida dessas populações através do paisagismo possível em ambientes complexos. O Guarituba hoje é uma fronteira de esperanças para 40.000 pessoas que residem naquele local. Se considerarmos que esse tipo de situação povoa a face mais perversa do processo de urbanização brasileiro – temos aí uma fronteira a superar em prol de uma sociedade mais justa e responsável com o ambiente vital de sua gente.
OFICINAS E MINI-CURSOS
O outro ponto que cabe ressaltar são as oficinas e mini-cursos a serem ofertados para quaisquer estudantes interessados em participar. As oficinas terão 8 horas de atividades e cobrem um leque amplo de disciplinas e abordagens sobre a paisagem na atualidade, a exemplo de: preservação de jardins históricos; observar e representar a paisagem; cenografia; arquitetura como paisagem; projeto de praças; des-fotografia e, se conseguirmos ainda outra, infra-estrutura verde. Os ministrantes das oficinas são os próprios conferencistas convidados ou profissionais de áreas como a arquitetura, urbanismo, antropologia, comunicação, engenharias, etc. O motivo de ofertar essas atividades durante o evento é sensibilizar os futuros profissionais para os temas do Paisagismo e suas fronteiras com outras especialidades. As oficinas ou mini-cursos são certificados e custam apenas R$ 50,00 de inscrição. Abrir as inscrições para estudantes de diferentes cursos é uma forma de provocar a heterogeneidade e interdisciplinaridade nas turmas – ou seja, mexer com as fronteiras dos participantes e apresentar-lhes os limites entre cada enfoque e tema a ser tratado em suas atividades.